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Quarta-feira, 12 de Ago de 2026
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cantidiosfilho@gmail.com

12/08/2026 - 10h01

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12/08/2026 - 10h01

Nem sanfoneiro nem doutor

 

"A sanfona era, no nosso entender, o melhor passaporte para chegar ao coração das mulheres..."

 "A sanfona era, no nosso entender, o melhor passaporte para chegar ao coração das mulheres..."

Os meninos da minha aldeia tínhamos um sonho em comum: ir para São Paulo, ganhar dinheiro graúdo e voltar para a terrinha com uma sanfona Scandalli, de preferência, vermelha. Por respeito à verdade, não era o amor à música o que nos movia; eram as mulheres. A sanfona era, no nosso entender, o melhor passaporte para chegar ao coração das mulheres...

Assim, os tios, os primos, o irmão mais velho, todos foram. Eu, ansiosamente, aguardava a minha vez. Enquanto sonhava com uma sanfona de verdade (a minha seria azul), eu me contentava com as sanfoninhas feitas com folhas de carnaúba. A caminho do açude, eu ia solfejando canções populares e imaginando as mulheres que colheria quando me tornasse um sanfoneiro de verdade.

Uma manhã, sem aviso prévio, o irmão regressou de São Paulo com uma reluzente sanfona vermelha. Tocava muito mal,ainda assim, impressionava as mocinhas desavisadas. Cantava uns baiões manjados e, para os padrões da época, fazia sucesso. Decidi que o melhor a fazer era ganhar tempo: aprenderia a tocar na sanfona do irmão antes de comprar a minha. Não foi uma boa ideia: depois de maltratar o instrumento por umas duas semanas, o máximo que consegui foi avariar uma das teclas. O irmão foi taxativo: “Nem olhe mais para minha sanfona”. Dona Purcina completou a sentença: “Um filho tocador já chega. Quero você doutor”. Não havia contra-argumento: a velha matriarca só usava os verbos no imperativo.

Assim, enquanto meu irmão flauteava com a sanfona a tiracolo, eu tentava vãmente descobrir as diferenças entre vocativo e aposto. Mas o sonho permanecia latente. Uma noite, ouvi no rádio de um vizinho o Sivuca tocando um frevo. Aquilo me deixou, a um tempo, extasiado e frustrado. Como sou virginiano, concluí que tocar daquele jeito eu jamais conseguiria e menos que aquilo não me bastava. Sepultei de vez o sonho de me tornar sanfoneiro. Infelizmente, também não cumpri as expectativas de dona Purcina: não me tornei doutor.

Resta-me o consolo de poder ouvir os grandes sanfoneiros e, naturalmente, pensar nas mulheres que deixei de colher... Não se pode ter tudo. Paciência.

*****

Cineas Santos é professor, escritor, poeta e produtor cultural - nas redes sociais. 

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