Nesses dias de novembro/dezembro de 2025, a imprensa do Piauí vem noticiando a abertura ao público do Casarão da Avenida Antonino Freire, no centro de Teresina-PI, logo ali entre os Correios e a Praça Pedro II. O que muita gente não sabe é que ali residiu por muitos anos Eurípides Clementino de Aguiar (1880/1953), que foi governador do Piauí entre 1916 e 1920. Eurípedes, inimigo ferrenho de Getúlio Vargas (1882/1954), pois o mesmo quando chegou ao poder com o golpe de 1930, cassou o mandato de senador dele, de Antonino Freire (1878/1934) (seu cunhado) e do governador Joca Pires também seu cunhado. Em 1933, Getúlio Vargas visitou o Piauí (era interventor/governador Landri Sales (1904/1978), governou o Piauí de (21/05/1931 a 03/05/1935) e, em Teresina, sem hotel à altura de receber autoridades, hospedou-se na residência do Dr. Freire Andrade (1888/1969), que era a melhor da cidade (por gentileza, desocupou a casa para Vargas pernoitar). A casa ficava na esquina da Rua David Caldas com a Av. Antonino Freire. À noite, Vargas enviou um emissário convidando Eurípedes para uma conversa: a resposta de Eurípedes foi seca “Diga aquele homem que morri”. O famoso casarão foi palco de muitas articulações políticas na época, pois Eurípides Aguiar, foi um político bem articulado em seu tempo, e influenciou várias eleições de correligionários, inclusive elegendo seu sucessor João Luís Ferreira (1881/1927), foi governador de 01/07/1920 a 1924. Mas o destaque do Casarão, não é mesmo o Eurípides e sim a Genu Moraes, sua filha.
Maria Genovefa de Aguiar Moraes Correia, mas conhecida por Genu Moraes (1927/2015). Desde cedo, influenciada pelo pai, se interessou por política. Por conta disso, conheceu muitas lideranças e personalidades da República, como Juscelino Kubitschek (1902/1976). Genu Moraes, conta em seu livro de memória que com 2 anos de idade passou a frequentar o Palácio de Karnak, pois o governador da época, Joca Pires (1869/1958), governador do Piauí entre 1º de julho de 1928 a 4 de outubro de 1930, era seu tio. Foi amiga pessoal de José Sarney e outros. Genu Moraes, tornou-se jornalista e também era escritora. Mas era rebelde e, o primeiro ato de rebeldia foi: convenceu o pai a tirá-la do Colégio das Irmãs, um dos mais conceituado de Teresina, simplesmente por conta das rezas sem fim. Namorou por pouco tempo João Mendes Olímpio de Melo (1917/1979), filho de Matias Olímpio Melo (1882/1967), que foi governador e inimigo de seu pai. Foi Rainha dos estudantes do Liceu Piauiense e outros.
Paralelo à militância política, revolucionou a juventude de Teresina, com o apoio de seu pai, foi a primeira mulher a andar a cavalo e, dirigir automóvel em Teresina (ganhou de presente do pai um Ford Americano, coupé preto a sensação do momento). Passou uma temporada em Belo Horizonte-MG, e, na volta, participou ativamente em campanhas políticas, inclusive foi peça fundamental na eleição Constituinte de 1945, e contribuiu para eleição do governador José da Rocha Furtado (1909/2005) em 1947 pela UDN, governador do Piauí de 1947 a 1951.
Genu Moraes, casou-se em 9 de agosto de 1947, com o empresário rico Antônio Moraes Correia de Parnaíba e foi morar em São Luís (MA), onde exerceu a profissão de jornalista, chegando a ser Presidente do Sindicato dos Jornalistas do Maranhão (Genu era vice-presidente do Sindicato, quando o presidente, foi assassinado), não pensou duas vezes, assumiu. Na época de chumbo grosso (ditadura militar), Genu Moraes desafiou os militares e elegeu-se vereadora de São Luís (MA), pelo MDB (único partido de oposição ao regime), inclusive a mais votada naquele pleito, onde poucas pessoas ousavam aquele desafio. Em São Luís, sua residência tornou-se ponto de encontros de políticos e intelectuais, inclusive gente do povão como: O poeta, compositor e cantor maranhense João do Vale (1934/1996). Em visita ao Maranhão, Juscelino Kubitschek, fez uma visita à casa de Genu Moraes e seu marido, onde foi considerada um evento notável. Exatamente naquele momento JK era perseguido pelos militares, onde logo depois efetuaram sua prisão. Sua residência, foi também considerada um foco de resistência aos militares. Conta o Ex-ministro do STF Edson Vidigal que quando foi preso pelos militares depois do golpe de 1964, Genu Moraes foi a 1ª pessoa a lhe visitar na cadeia.
De volta ao Piauí, foi chefe do Cerimonial do Palácio de Karnak, nos governos de Alberto Silva e Mão Santa. Em 2009 tomou posse da cadeira de número 9 da Academia Piauiense de Ciências.
Genu Moraes sabia tudo de Teresina em sua época, como: Incêndios criminosos em Teresina nas décadas de 30/40; carnavais de Teresina; assassinato do vigia Miguel Pedro e Capitão Vanderlei por Zezé Leão; Chacina do Posto King (onde o empresário José Maria Chaves assassinou 3 policiais em 16/02/1974 e, em 28 de novembro de 1978, foi assassinado pela PM); Morte de forma cruel do Carteiro Elzano Ferreira de Sá em fevereiro de 1977. Prisão e cassação do vereador Jesualdo Cavalcante (1940/2019), pelos militares aos namoriscos na Praça Pedro II, (durante muito tempo a praça foi palco de encontro da sociedade teresinense, ali havia uma divisão): na parte de cima o povão, inclusive houve muitos conflitos, pois alguém sempre tentava tomar a mulher do outro e na parte de baixo a elite, a movimentação no Teatro 4 de setembro, Cine Rex, Bar e Restaurante Carnaúba e Clube dos Diários. Depois das 21 horas, quando a luz apagava: As moças iam para suas casas e os homens mais bastardos, desciam para a Paysandu, visitavam os cabarés da época.
Curiosidade. A história diz que os piauienses fizeram festa para comemorar a Prisão de Juarez Távora (1898/1975), durante a passagem da Coluna Prestes por Teresina/Piauí em 1925/1926). Mas, segundo a Genu Moraes, cita em seu livro de memória: Seu avô Helvídio Clementino de Aguiar (1848/1936), conta que na verdade Juarez Távora, se entregou à polícia, pois estava com gonorreia crônica e entregou-se para poder se tratar.
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José Teófilo Cavalcante. Conselheiro de Saúde, Estudiosos do SUS, Diretor do SINTSPREVS/PI. Fonte de Pesquisa. Livro de Memória de Genu Moraes: A Mulher e o Tempo (escrito por Kenard Kruel, falecido); Portal O Dia; Cidade Verde e outros.






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