Sou publicitário e roteirista profissional. Tento ganhar a vida desde a juventude fazendo esse trabalho. Escrever textos que se transformarão em cenas, imagens e diálogos, sejam roteiros de ficção, informação, ou educação.
A quantidade de pessoas que fazem esse ofício na nossa cidade não é muito grande, creio que poucas centenas, talvez algumas dezenas. Não falo isso por envaidecimento ou algo parecido. Não é uma atividade glamorosa, como parece à primeira vista. E pode ser cruel como qualquer outra desempenhada pelo trabalhador.
Em setembro, fui contratado para redigir o roteiro final dum filme já com uma história original escrita. Trata-se dum trabalho usual, quando são inseridas as descrições de cenas e as “falas” definitivas, aquelas que serão utilizadas nas filmagens.
Me disseram que o orçamento estava limitado. Para um serviço que vale algo em torno de 20 salários mínimos, por baixo, me ofereceram 10 salários. Eu receberia R$ 16.000,00 (dezesseis mil reais), que é igual a 1,06% da verba do filme (R$ 1.500.000,00), a serem pagos em 4 parcelas, a última no final do ano de 2025. Situação financeira difícil, a minha, como sempre – aceitei.
Fiz o meu trabalho, dentro de prazo, observando as normas, a nossa cultura, a dignidade humana, os valores duma sociedade mais justa etc. Se não houve brilhantismo, há correção, dedicação e compromisso em fazer bem feito.
Estamos em dezembro. Até o momento, recebi pouco mais da metade do contrato, R$ 8.500,00 (oito mil e quinhentos reais), quando deveria estar recebendo os R$ 4 mil restantes.
Pra piorar as coisas, além de não conseguir receber o pagamento pelo trabalho que foi feito e entregue, a produtora está me colocando uma condição para receber o restante: abrir mão duma parte do valor que foi contratado, R$ 3 mil reais. Para um trabalhador, ter que se sujeitar a isso é deprimente, aviltante, seja quanto for o desconto. Significa que seu trabalho tem pouco valor. Que VOCÊ tem pouco valor.
Então, não vou aceitar acordos e, portanto, posso ficar sem receber o restante do meu pagamento. Muitos vão me indicar que busque a Defensoria Pública. É meu último recurso. Tenho muito receio de que seja aconselhado a aceitar aquilo que me “oferecem”. É o que tenho visto ultimamente.
Quanto ao aspecto jurídico, explico que o filme em questão, a ser realizado, teve financiamento federal, via Lei Paulo Gustavo. Já que tenho muito poucas esperanças de receber aquilo que me é devido, a minha única alternativa será entrar, talvez junto ao Ministério Público Federal, com o questionamento do Direito Autoral, para impedir que o roteiro final escrito e entregue por mim seja filmado.
Em outras palavras, pra defender o meu direito, talvez seja inviabilizada, ou pelo menos adiada por não se sabe quanto tempo, a realização de mais um filme piauiense.
Por isso, enfim, é que estou aqui: pra pedir ajuda. Jurídica, emocional, espiritual (reza, mandinga etc.) e financeira, por meio de trabalhos que eu possa executar nessa área e ser remunerado corretamente. A necessidade grita e arrudeia.
O mais engraçado é que há notícia que essa mesma produtora teve conduta financeira responsável com profissionais de nome nacional. Então, pra eles, nós, trabalhadores piauienses, é que somos o problema, é que temos pouco valor. Ou nenhum!
Muito obrigado pela atenção.
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Manoel Ciríaco, publicitário e roteirista profissional - nas redes sociais.






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