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Carolina Maria de Jesus

 

Uma das primeiras escritoras negras do Brasil.

 Uma das primeiras escritoras negras do Brasil.

O livro que li esta semana, foi: “Quarto de Despejo” da escritora Carolina de Jesus, para quem não sabe ainda, eu leio um livro por semana e, recomendo a leitura. Carolina de Jesus foi uma negra, nascida em Sacramento, MG a 14 de março de 1914 e faleceu em São Paulo em 13 de fevereiro de 1977, aos 62 anos. Filha de pais negros, oriunda de família humilde, estudou pouco. Era filha ilegítima de um homem casado e foi maltratada durante toda a infância. Aos sete anos, sua mãe a obrigou a frequentar a escola depois que a esposa de um rico fazendeiro decidiu pagar seus estudos. Ela interrompeu o curso no segundo ano, tendo já conseguido aprender a ler e escrever e desenvolvido o gosto pela leitura. Carolina de Jesus, mudou-se para Franca (SP) em 1930, onde trabalhou como empregada doméstica. Em 1937, rumou para São Paulo- capital, onde foi morar na favela, lá construiu sua própria casa, usando madeira, lata, papelão e qualquer material que encontrasse pela frente. Carolina, mãe solteira de três filhos (dois homens e uma mulher), todos os dias saía para catar papelão e outros lixos e, os filhos só comiam quando ela vendesse o lixo catado, se não catasse nada, não comiam nada, e, assim viveu por muitos anos.

Foi uma escritora, cantora, compositora e poetisa. Ficou famosa por seu primeiro livro Quarto de Despejo: Diário de uma favelada, publicado em 1960 com o auxílio do jornalista Audálio Dantas. O livro fez muito sucesso, tendo vendido de cara 10 mil exemplares em apenas uma semana, sendo traduzido para treze idiomas e distribuído em mais de quarenta países. A publicação e a tiragem recorde, cerca de 100 mil em três edições sucessivas, revelam o interesse do público e da mídia da época pelo ineditismo na narrativa da favelada catadora de papéis e de outros lixos recicláveis. 

Uma das primeiras escritoras negras do Brasil, Carolina de Jesus é considerada uma das mais importantes escritoras do país. A autora viveu boa parte de sua vida na favela do Canindé, na Zona Central de São Paulo, sustentando a si mesma e seus três filhos como catadora de lixo. Sua obra e vida permanecem objetos de diversos estudos, tanto no Brasil quanto no exterior.

Segundo o jornalista, escritor e poeta Audálio Dantas (1929/2018), que recebeu como pauta escrever uma matéria sobre uma favela que se expandia na beira do Rio Tietê, no Bairro Canindé. Lá encontrou Carolina de Jesus que tinha a história da favela em um diário. A história da favela que ele buscava estava escrita em uns vinte cadernos encadernados que Carolina guardava em seu barraco. Leu, e logo viu: repórter nenhum, escritor nenhum, poderia escrever melhor aquela história- visão de dentro da favela. Daí saiu uma reportagem para a revista o Cruzeiro, publicada Folha da Noite, em 1958 e depois o livro, publicado em 1960. Carolina viu a cor da fome e, todo o tipo de miséria e humilhação que se possa imaginar, mas uma que mais chamou atenção foi: diz que certa vez estava na fila para pegar água, uma vizinha falou que pediu esmola na casa de uma senhora, a mesma mandou esperar e logo vem com um embrulho, ela não quis abrir, pensando que poderia ser carne ou outra coisa, deixou para abrir em casa e, quando abriu era simplesmente: uma sacola cheia de ratos mortos. Era assim que tratavam os favelados.

Carolina de Jesus, contava que não gostava de bisbilhotar a vida dos outros e, “quando não tinha nada o que comer, em vez de xingar eu escrevia”, portanto ocupava seu tempo de folga lendo e escrevendo, ela era bem informada, acompanhava a vida política do Brasil e dos políticos da época, como: Ademar de Barros (1901/1969, governador de São Paulo na época), Carlos Lacerda (1914/1977, jornalista e político), Juscelino Kubitschek (1902/1976, presidente da República), Teixeira Lott (1894/1984, Ministro importante do governo JK), Jânio Quadros (1917/1992, presidente da República por 7 meses) e outros. 

Porque o nome do livro “Quarto de Despejo”, Carolina dizia que: em 1948, quando começaram a demolir as casas da favela para construir os edifícios, nós, os pobres, que residíamos nas habitações coletivas, fomos despejados e ficamos residindo debaixo das pontes que é o quarto de despejo de uma cidade. Nós, os pobres, somos os trastes velhos.

Origem das Favelas. O termo “favela”, se relaciona à Guerra dos Canudos (1896/1897). Relatados por Euclides da Cunha no livro “Os Sertões", Canudos ficava em meio a alguns morros, entre eles estava o Morro da Favela, assim batizado porque era coberto pela planta homônima. Outras obras de Carolina de Jesus: Casa de Alvenaria (diário, 1961); Provérbios (memórias, 1963); Pedaços da  Fome (memória, 1963); Diário de Bitita (memória, 1986); Antologia pessoal (poemas, 1996) e Meu estranho diário, 1996).   

O sucesso da venda do livro fez Carolina sair da favela e mudar-se para uma região próxima de casas ricas, mesmo assim não ficou rica e terminou sua vida como classe média baixa. Morreu de insuficiência respiratória, devido à asma. Carolina, ainda teve tempo para lançar 12 músicas de sua autoria e recebeu muitas homenagens, inclusive o título de Cidadã Paulistana e um legado internacional. Recomendo: O livro e a leitura.

Para conhecimento. Exatamente, dia 7 de novembro de 2025, a escritora Ana Maria Gonçalves, tomou posse na Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira nº 33, sendo assim a primeira Mulher Negra a chegar ao posto. Depois faremos um comentário, pois estou lendo o seu livro: Um Defeito de Cor, que possui exatamente mil páginas.   

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José Teófilo Cavalcante. Estudioso do SUS, Conselheiro de Saúde e Diretor do SINTSPREVS/PI.

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