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cantidiosfilho@gmail.com

11/05/2026 - 07h52

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Lição de Casa

 

Dona Purcina, mãe do professor Cineas Santos

 Dona Purcina, mãe do professor Cineas Santos

Às mães sertanejas

Dia desses, parei num semáforo (sou do tempo em que isso era normal) e, num segundo, vi-me cercado por um enxame de garotos, quase todos do mesmo tope; todos eles da mesma cor: marrom-descaso. Obedecendo a uma hierarquia que desconheço, apenas um deles pediu-me “um trocado”; os outros, quietos, ficaram espiando. De repente, um deles adianta-se, saca do bolso uma flanelinha vermelha e, com ela, joga o bote certeiro: “Ajude uma criança, freguês! Só um real”. Decididamente, não sou o que se possa chamar de “freguês”, tampouco necessito de flanelas. A despeito disso, acabei comprando o pedacinho de pano amarrotado. Eu e dona Purcina sabemos por quê.

Menino ainda, morando em São Raimundo Nonato, presenciei uma cena que me marcaria para sempre. Numa manhã qualquer – naquela época, todas me pareciam iguais – passa um garoto entanguido vendendo lenha. A bem da verdade, não era lenha; era um simples feixe de gravetos de marmeleiro, coisa sem a menor serventia. Sem perguntar o preço, d. Purcina comprou-o. Seu Liberato, que a tudo assistira, cioso da sua autoridade de dono da casa, interpelou-a, com certa rispidez:

– Tá faltando lenha na casa?

– Não, respondeu a minha velha.

– Tá sobrando dinheiro? – insistiu.

– Também não.

– Então, por que diabo você comprou essa porcaria?

Sem levantar a voz, dona Purcina explicou:

– Hoje esse garoto passa vendendo lenha; se ninguém comprar, amanhã passará pedindo esmolas; se ninguém der, depois de amanhã, passará furtando o que encontrar pela frente.

E mais não disse porque mais não lhe foi perguntado. Sem argumentos para contestá-la, meu pai fez a única coisa que lhe cabia fazer: calou-se.

Por oportuno, vale lembrar que dona Purcina não era antropóloga, socióloga, psicóloga, assistente social, nem mesmo professora de uma escolinha isolada nos cafundós de Caracol. Era uma simples e competente doceira.

Teresina, 1º de julho de 1996.

*****
Cineas Santos é professor, escritor, poeta e produtor cultural - nas redes sociais. 

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