Na noite de 30 de abril de 1984, seu Liberato, que dormia muito cedo, permanecia insone. Parecia não encontrar o lugar adequado para agasalhar a cabeça. Por volta da meia-noite, disse para a filha que o assistia: “Dezinha, veja o que é a vida: quando eu era gente, estendia uma manta no chão, botava a cabeça na sela e dormia a noite inteira”. Fez uma pequena pausa e acrescentou: “Hoje, este colchão de molas parece cheio de espinhos”.
Às quatro da manhã do dia 1º de maio, com muito sacrifício, levantou a cabeça e afirmou: “Dezinha, o Cineso deve estar chegando”. E calou-se. Terminava ali a trajetória de Liberato Francisco dos Santos, um sertanejo atípico: não fazia versos, não tocava viola, não bebia cachaça, não contava vantagens, não queimava a terra, não caçava, não pescava, não maltratava os animais, não castigava os filhos e não mentia. Trabalhava muito, comia pouco, dormia o bastante. Um homem sem transbordamentos. Um homem que cabia em si. Um homem exato.
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Cineas Santos é professor, escritor, poeta e produtor cultural - nas redes sociais.






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