Como afirmei em outro momento, sou de um tempo sem doenças com pedigree, remédios baratos e curas improváveis. A despeito disso (ou talvez por isso), sobrevivi para contar. No sertão, as doenças mais comuns eram moleira mole, espinhela caída, dordói (conjuntivite), lombrigas, bicho-de-pé e, naturalmente, frieira... Nada que não se curasse com reza forte, beberagens amargas ou mezinhas. Nos casos mais graves, recorria-se à velha e segura Aguardente Alemã, remédio para todos os males.
Só entrei num consultório médico aos 17 anos de idade quando já morava em Teresina. Por ironia do destino, o esculápio que me atendeu era um ginecologista que fazia as vezes de clínico geral. Se fosse hoje, com essa salada de letras para definir os gêneros, eu poderia ter saído do consultório com o diagnóstico de “gravidez precoce”... Era só um defluxo renitente. Nada mais de mais grave.
Por que estou me lembrando dessas bestagens? Dia desses, ao entrar numa farmácia, vi um anúncio que me deixou assustado:” Acaba com a frieira!”. Como a vista, às vezes, já me falha, li: acabe com a freira! Assustado, voltei, li com cuidado e descobri que era apena o anúncio de uma pomada para combater frieiras. Respirei aliviado, comprei meu caché e saí da farmácia. A caminho de casa, a pergunta me verrumou o juízo: e frieira ainda existe?
Para os mais jovens, frieira (tinea pedis) é uma infecção capaz de infernizar a vida do cristão. Como todos andávamos descalços e lidávamos com bodes e jegues, éramos acometidos dessa micose que, literalmente, nos tirava o sono. Por razões que ignoro, a maldita coceira nos atacava justamente quando já estávamos deitados. Impossível dormir com frieira. A opção era coçar, coçar, até sangrar... Por falta de medicamento específica, recorríamos a remédios improvisados: querosene, limão com pólvora preta, folha de cabaceira aquecida...
Lembrei-me mais um vez do anúncio e não pude deixar de louvar os avanços da medicina moderna: além de descobrir doenças inimagináveis, produziu um medicamente para acabar com a maldita frieira. Deus seja louvado!
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Cineas Santos é professor, escritor, poeta e produtor cultural - nas redes sociais.






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