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Quinta-feira, 23 de abril de 2026
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cantidiosfilho@gmail.com

14/04/2026 - 09h27

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14/04/2026 - 09h27

Insólita Saudade

 

"Dona Purcina me mandar doce de leite, uns “bolos voadores”, umas “cambraias”.

 "Dona Purcina me mandar doce de leite, uns “bolos voadores”, umas “cambraias”.

Durante muito tempo, acreditou-se que a palavra saudade fosse uma espécie de idiomatismo da língua portuguesa, ou seja, uma palavra que só existe em nossa língua. Hoje, a tese já não encontra muitos defensores. De uma forma ou de outra, a palavra está sempre muito viva no idioma pátrio. Um crítico mordaz chegou a afirmar que, sem saudade e sem estelas, a lírica luso-brasileira estaria comprometida. O poeta Da Costa e Silva, por exemplo, escreveu: “Saudade! És a ressonância/de uma cantiga sentida, /que, embalando a nossa infância, / nos segue por todo a vida!” Estranho: nele a saudade era um sentimento permanente...

É curioso como sentimos saudades de coisas ou situações banais. Numa croniquinnha lírica, Manuel Bandeira escreveu: “Juanite, em sua última carta escrita em Haia, afirma: mas que saudades de chuchu com molho branco”. O poeta admira-se de a amiga, podendo comer pratos sofisticados, lembrar-se de um prosaico chuchu com molho branco... O cartunista Henfil, dos Estados Unidos, pedia, desesperado, aos amigos que lhe mandassem Pastilhas Valda. Estava morrendo de saudades...

Por amor à verdade, não sou o que se possa chamar de um saudosista. Mas hoje acordei com saudades de “cambraria”. Alguns estranharão a insólita saudade. Cambraia, como se sabe, é um tecido fino, delicado, nobre. A “cambraia” que me acendeu a saudade é apenas um beijuzinho delicado, muito fino e crocante. Nenhum mistério: faz-se o beiju bem fino, deixa-o ficar durinho e, depois, basta pô-lo ao sol por alguns minutos. A luz solar confere-lhe um sabor indescritível... Fiquei feliz ao saber que, em Petrolina (PE), a “cambraia” é patrimônio cultural do município.

Talvez, em mim, a saudade se explique, não só pelo sabor da iguaria, mas por razões de ordem afetiva. Explico: quando eu andava na corda bamba aqui, dona Purcina sempre encontrava um jeito de me mandar um doce de leite, uns “bolos voadores”, umas “cambraias”. Aquelas coisinhas sabiam a cuidado, a carinho, a zelo de mãe...

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Cineas Santos é professor, escritor, poeta e produtor cultural - nas redes sociais. 

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