Dia desses, acordei cedo. Agradeci pela claridade da hora, espreguicei-me como um felino saciado e, para minha surpresa, nenhuma dor. Fiquei apreensivo: reza a sabedoria popular que velho, quando acorda sem dor, pode ter desencarnado à noite e o corpo ainda não foi comunicado. Tomei café forte, li um poema do Quintana, e dor nenhuma se manifestou. Fui ao banco pegar os caraminguás a que tenho direito como inválido da pátria. A moça que me atendeu foi direta: " Precisa fazer a comprovação de vida". Tremi nos tamancos: é agora! Depois de responde a algumas pergunta, liberou-me. De posse do papelucho, comprovante de que ainda estou vivo, fiz um movimento mais brusco e o ciático acordou: dor aguda. Sorri aliviado. O poeta tem razão: "Entre a dor e o nada, a dor".
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Cineas Santos é professor, escritor, poeta e produtor cultural - nas redes sociais.






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