Eu teria uns 8 anos de idade quando vi,pela primeira vez, um ostensório numa celebração de Corpus Christi. Não me lembro de ter visto nada tão belo antes. Decidi na hora que,quando crescesse,seria padre. Por minha conta e risco,passei a frequentar aulas de catecismo. As coisas iam mais ou menos bem, até que me deparei com o mistério da Santíssima Trindade. Três deuses habitando um mesmo ser era um tanto complicado para um menino sertanejo. No afã de tornar as coisas menos nebulosas, um padre espanhol apareceu na aula com um prosaico ovo de galinha na mão. Em portunhol, perguntou: “O que temos aqui?”. Sem nos dar tempo de responder, explicou: “Um ovo”. Nenhuma novidade. Em seguida, adiantou: “Temos uma unidade que se compõe de três partes: casca, clara e gema”. Como se tivesse descoberto a pólvora, esboçou um sorriso e afirmou: “Uma unidade composta de três partes sem deixar de ser uma”. E, com ar triunfante, “Assim é a Santíssima Trindade”. Se os outros alunos entenderam a explicação, não sei. A mim tudo o que o padre conseguiu foi levar-me a encarar ovos com alguma desconfiança.
Mas fui em frente. Cumprida toda a preparação, chegou a hora de preparar-nos para a Primeira comunhão. Para ter acesso ao corpo do Cordeiro, seria necessária uma confissão. Bateu o maior desespero. Tive insônia, desarranjo intestinal, febre. No dia e hora aprazada, ajoelhei-me no confessionário e preparei-me para o pior.O padre,com aquele cheiro de queijo rançoso que caracteriza os europeus, insistia em saber se eu já cometera “pecados da carne”. Diante do meu embaraço, insistiu: “Já pecou conta a castidade?”. A bem da verdade, eu mal sabia o significado da palavra castidade. Falei qualquer coisa e fui cumprir a penitência estipulada. No dia da comunhão, permanecemos em jejum até as nove horas. “Transbordando de alegria pascal”, fomos tomar café da manhã na Casa Paroquial. Serviram-nos um achocolatado meio morno e pão de queijo. Saí correndo para uma latrina imunda: tive um bruto desarranjo intestinal. As coisas estavam nesse pé, quando descobri uma fulaninha cujos olhos encerravam mais mistérios que a trindade santa. Desisti do sacerdócio e me fiz amador...
Uma noite, no mês de agosto, assisti, da janela do Clubão, a apresentação de um conjunto de juazeiro (BA).Para quem só conhecia sanfona,triângulo e zabumba, ouvir sax, trompete,violão elétrico e bateria foi pouco menos que alumbramento. O grupo tocava jazz, um ritmo diferente de tudo o que eu já ouvira. O saxofonista, um negro cheio de bossas, impressionou-me profundamente. Decidi, na hora, que seria saxofonista. Por essa época, eu já descobrira os tais “pecados da carne” e morria de amores por uma sirigaita dissimulada como uma Capitu sertaneja. Tornei-me um sofredor...
Muito tempo depois, ouvi um solo de 16 minutos de John Coltrane, um dos maiores saxofonistas do mundo. Pensei: impossível ir além. Aposentei o sonho de tornar-me saxofonista e formulei uma teoria que tanto agrada ao músico Wilker Marques. Ei-la: só existem dois pecados que Deus não perdoa: mãos impuras levantarem um ostensório e mãos imperitas maltratarem um sax.
Muito mais tarde descobri que a palavra está sempre no início de todas as coisas. Tornei-me camelô da boa literatura produzida pelos outros. Isso me basta.
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Cineas Santos é professor, escritor, poeta e produtor cultural - nas redes sociais.






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