10 de abril de 1986.
Fontes Ibiapina faleceu poucas horas após assistir, de luneta, à passagem do cometa Halley sobre as dunas da lagoa do Portinho. Alguns meses antes, o filho Aristóteles ouviu do pai o interesse por uma luneta. Por volta de fevereiro, conseguiu comprá-la em uma loja de Fortaleza, para surpreendê-lo. As previsões indicavam que o cometa apareceria na noite do dia 9 de abril, quarta-feira, e seria visto à uma da manhã.
O grupo se dirigiu ao bar de Raimundo Silvestre, uma palhoça às margens da lagoa, que vendia peixe frito e cerveja. Em seguida, todos subiram as imensas dunas que circundam a lagoa, para ver o cometa. A cauda surgiu, com um pouco de dificuldade, porque estava nublado. Fontes Ibiapina estava alegre. Adorava essas aventuras. Por volta de duas da manhã voltaram ao bar.
Aristóteles pegou carona de volta com o pai, que o deixou em casa às três da manhã em seu Corcel II azul escuro, ano 1985. No caminho, Fontes Ibiapina colocou no toca-fitas do carro o cassete “Para Iluminar a Cidade”, de Jorge Mautner. Era um disco marginal, que foi gravado ao vivo no Teatro Opinião, em abril de 1972. Aumentou o volume (gostava de ouvir música alta) e deixou tocar “Estrela da Noite”, uma de suas músicas prediletas e a última que ouviria em vida: “A noite é escura / E o caminho é tão longo / Que me leva à loucura (...)”. Deixou Aristóteles em casa e seguiu em frente, a música sumindo ao longe na madrugada.
O escritor chegou em casa pouco depois das 3 da manhã. Colocou o carro na garagem e subiu para o quarto. Tirou a roupa e vestiu o pijama azul claro de tecido fino, camisa aberta ao peito. Gostava de andar em casa à vontade, da forma como estava naquele momento. Nos momentos seguintes, não conseguiu dormir. Alguma coisa não estava bem. Sentia um aperto no peito, um incômodo a que não estava habituado. Sentou-se na cama, pensando que poderia melhorar, mas não conseguia se acalmar. Por volta de 6h00, uma dor violenta o jogou de costas na cama. Helena, que trabalhava na casa, ouviu uma voz aflita e foi até o quarto, confirmando que Fontes Ibiapina não estava bem. Imediatamente, ligou para Ariosto, o filho médico, que tentou reanimá-lo, sem resultado. Decidiu levá-lo ao Hospital Nossa Senhora de Fátima, onde novas tentativas foram em vão. Acabou-se o homem. Ficou a obra e o exemplo.
O corpo de Nonon foi trasladado para Teresina, para ser velado na sede da Associação dos Magistrados. Na manhã do dia 11 de abril de 1986, repousou no Cemitério São Judas Tadeu, onde o aguardava sua “nunca deslembrada” Clarice. O menino da Lagoa Grande fez sua última viagem, fechando um livro palpitante.
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Eneas Barros, escritor piauiense - nas redes sociais.






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