Conhecedora das minhas origens sertanejas, dileta amiga me mandou uma foto de um cacto florido. Trata-se de rabo-de-raposa, muito comum nas regiões de caatinga. As flores lembram pequenas figas. A cor (carmim) é de uma beleza quase acintosa.
Ao que importa: mal vi as flores, lembrei-me do velho Liberato, meu pai. Em outro momento, afirmei que meu pai era um sertanejo atípico. Um homem sem transbordamentos: nunca o vi eufórico nem colérico. Era um homem que cabia em si.
Uma característica marcante no velho era a delicadeza. Quando regressava do roçado no final do dia, sempre nos trazia alguma coisa: uma pororoca de melancia temporã, um maracujá do mato, um favo de enxuí, uma flor... Isso mesmo, uma flor da chapada: caroá, mucunã, cebola-de-tatu. Nunca me esqueci do dia em que me trouxe flores de rabo-de-raposa. A partir de então, sempre associei essas flores ao velho Liberato. Não por acaso, cultivo um pé de rabo-de-raposa no meu quintal.
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Cineas Santos é professor, escritor, poeta e produtor cultural - nas redes sociais.






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