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cantidiosfilho@gmail.com

13/11/2025 - 07h56

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Da Arte de Voar Alto

 

Salgado Maranhão, poeta maranhense

 Salgado Maranhão, poeta maranhense

Tudo parecia conspirar contra o menino Zé, o “ponta-de-rama” de dona Raimunda. A pobreza, a cor da pele, o isolamento. Em Cana Brava das Moças, zona rural de Caxias (MA), onde nasceu, não havia escolas nem livros. Acidentalmente, passava por lá algum cantador a caminho de Caxias. Aos olhos do menino, um alumbramento. Para esfriar-lhe o entusiasmo, algum dos mais velhos advertia: “Poesia não dá camisa a ninguém”. O que não poderiam imaginar é que aquele menino entanguido jamais se contentaria com simples camisas. Na verdade, queria asas. E asas lhe nasceriam tão logo aprendesse a encantar palavras...

O irmão mais velho percebeu a inaptidão do garoto para as labutas da lavoura. Assim, decidiu que migrariam para um lugar onde houvesse escola. Sem que ninguém a esperasse, aquela família pobre desembarcou em Teresina, em novembro de 1968. Entocado num bairro pobre onde nem havia luz, José Salgado Santos percebeu que o caminho a trilhar seria áspero. Não se amedrontou: a despeito da pouca idade, em matéria de asperezas, tinha farta experiência. Semianalfabeto, matriculou-se numa escola pública e, em curto espaço de tempo, já conseguia pescar o sentido das sentenças. Uma manhã qualquer, enquanto vendia imagens de santos no centro da cidade, entrou na Biblioteca Pública de Teresina. Naquela manhã, não vendeu nada, mas ganhou a companhia de Fernando Pessoa. Ao regressar ao casebre onde vivia com a família, tinha um brilho novo no olhar. Acabara de descobrir a poesia.

Servindo-se do atalho do Madureza, em pouco mais de três anos, concluiu o primeiro e o segundo graus. À época, já sabia que queria ser poeta, mas antes de arriscar-se a escrever poemas, aprendeu noções de metrificação com Luís Lopes Sobrinho e Hardi Filho, exímios sonetistas. Percebeu que, antes de tentar “desconstruir” a poesia tradicional, precisava conhecer o mínimo da carpintaria do verso. Com o domínio do básico, começou a publicar poemas nas páginas do jornal O Dia.

Em 1973, percebeu que os céus da Chapada não lhe bastavam. Com a cara e o atrevimento dos que nada têm a perder, migrou para o Rio de Janeiro. Em 1978, já estava capitaneando um ousado projeto poético: a antologia Ebulição da Escrivatura, editada pela Civilização Brasileira. O mais é do conhecimento de todos: doze livros de poesia, dezenas de letras de canções; alguns prêmios literários, entre eles o Jabuti, e poemas publicados em vários idiomas.

O menino de Cana Brava das Moças tornou-se cidadão do mundo, tendo a poesia como passaporte. Recentemente, recebeu da Universidade Federal do Piauí o título de Doutro Honoris Causa, uma honraria concedida a poucos. Se bem o conheço, Salgado Maranhão ainda tem fôlego para ir mais longe. Quem viver verá.

Salgado aniversaria hoje. Longa vida, poeta.

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Cineas Santos é professor, escritor, poeta e produtor cultural - nas redes sociais.

 

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