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Sabado, 07 de março de 2026
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cantidiosfilho@gmail.com

23/10/2025 - 08h33

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23/10/2025 - 08h33

Da (In)utilidade da Poesia

 

Professor Cineas Santos

 Professor Cineas Santos

Menino, no sertão do Caracol, ouvi meu pai afirmar: “Verso e cantoria não dão camisa a ninguém”. Falava com a “autoridade” de quem jamais lera uma quadrinha. Seu Liberato era um sertanejo de aspirações rasas: bastavam-lhe uns pingos de chuva. A aversão do velho à poesia não impediu que, aos seis anos de idade, ela me contagiasse. Ao ouvir uma tia cantar um folheto de cordel, decidi que era “aquilo” que eu queria fazer quando crescesse.

Aprendi a ler apenas para viajar nas asas dos folhetos de cordel. Li todos os que me chegaram às mãos, decorei alguns e, aos 12 anos de idade, cheguei a escrever umas poucas estrofes de um folheto de sacanagem, aventura que me rendeu uma surra conversada. Ainda assim, não me livrei do vírus.

Ao longo da vida, li milhares de poemas, editei centenas e continuo divulgando poesia onde posso. Isto não faz de mim um poeta. Sou, como já afirmei tantas vezes, um camelô da boa poesia escrita pelos outros. É verdade que também cometi alguns poemas. Um deles, minimalista, é bastante festejado. Trata-se de “Nada Além”, presente em antologias e livros didáticos.

Um dia, recebo na Oficina da Palavra uma jovem muito alegre e expansiva. Contou-me que mãe, professora aposentada da UFPI, resolveu mudar-se para Recife onde trabalharia numa universidade pernambucana. Levou-a naturalmente. De cara, a moça detestou a cidade. Passou a detestar um pouco mais depois da primeira aula no colégio onde fora matriculada. As colegas, ostensivamente, faziam questão de ignorá-la. Decidiu que voltaria para Teresina. Passaria a morar com a avó.

Por insistência da mãe, aceitou ficar por uma semana. Ignorada, acuada, infeliz, resolveu que não voltaria à escola no dia seguinte. Eis que, lá pelas tantas, adentra a sala de aula o professor de literatura. Para quebrar o gelo, fez uma pergunta: “Alguém aqui sabe o que é poesia?”. Os alunos entreolharam-se e permaneceram calados. O professor escreveu na lousa:

Nada Além

O amor bate à porta

e tudo é festa.

O amor bate a porta

e nada resta.

Fez uma pausa e concluiu: “Isto é poesia, excelente poesia. O autor é um piauiense chamado Cineas Santos”. Incontinenti, a aluna rejeitada levantou o braço e declarou, alto e bom som: “Eu o conheço. É muito amigo de minha mãe”. A turma inteira se virou e para contemplar a menina, amiga do “inventor” da poesia. A partir de então, passaram a tratá-la com deferência. Sorrindo, a moça contou-me a história e concluiu: “O senhor é culpado por minha permanência no Recife”. Limitei-me a sorrir.

Finalmente descobri que o meu poema, por vias transversas, mudou o destino daquela jovem. Como diria uma menina sapeca: “É raro, mas acontece muito”. A vida tem muitas curvas...

*****
Cineas Santos é professor, escritor, poeta e produtor cultural - nas redes sociais.

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