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cantidiosfilho@gmail.com

14/10/2025 - 06h34

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14/10/2025 - 06h34

Um rio feito de poesia

 

"Todo dia, ou quase, vou ao rio, de manhã ou à tarde" (Foto: Lourival Lopes)

 "Todo dia, ou quase, vou ao rio, de manhã ou à tarde" (Foto: Lourival Lopes)

O rio Parnaíba é um curso de água genuinamente nordestino, nascido na serra das Mangabeiras há 700 metros do nível do mar, separando os estados do Piauí e do Maranhão. Possui uma extensão de 1.485 quilômetros. É rio perene e navegável. 

Serve de inspiração a poetas, músicos, escultores e folcloristas. O poeta Da Costa e Silva o batizou de "velho monge". O padre Antônio Vieira, o autor dos Sermões, ao viajar em suas águas, o denominou de Paravaçu. 

Em suas margens, nasceram mais de 40 cidades, inclusive a capital do Piauí, Teresina. 

Existe um belíssimo trabalho sobre o rio Parnaíba, um recorte de sua história social de 1850 a 1950, feito pela pesquisadora Gercinair Gandara, intitulado RIO PARNAÍBA... CIDADES-BEIRA, uma tese de doutorado da UNB, ano de 2008. Ela começa a introdução do trabalho com a expressão "Era uma vez um rio..." com reticências para deixar as pessoas ribeirinhas como eu, ou não, cheias de lembranças. 

Todo dia, ou quase, vou ao rio, de manhã ou à tarde. Gosto de fotografá-lo e de ver o pôr do sol que, como não conheço outros, julgo ser o mais belo que existe. 

Durante muito tempo, o rio servia de caminho entre as cidades percorrido por grandes e pequenas embarcações a vapor. Na tese a que me referi, há um capítulo sobre a navegação a vapor, intitulado: O COMÉRCIO E A NAVEGAÇÃO A VAPOR  NO BALANÇO DAS ÁGUAS PARNAIBANAS (Capítulo IV). 

Como sou uma pessoa ligada à poesia, tenho o rio como inspiração, não consigo vê-lo diferente. Sou nascido em suas margens no ano de 1958 e não tenho lembrança desse tipo de navegação, apenas lembro de grandes balsas, rio abaixo, carregadas de potes. 

De lá para cá, o rio vem sentindo muito a ação predatória do homem. Nessa época do ano, é possível atravessá-lo a pé sem muito esforço. Mas resiste e ainda é muito perigoso atravessá-lo dessa maneira. 

Enfim, ainda guarda as suas belezas, mas se nota facilmente sinais de velhice, uma espécie de cansaço natural, que lhe esvai as forças. Até os peixes escassearam. Há que ter uma política séria dos dois estados para proteger o nosso rio. Ninguém vê, porém, nenhuma atitude da parte deles. 

Então, ao olhar de uma pessoa que sobreviveu nas suas margens, não resta outra coisa que não seja ficar rememorando histórias, paisagens, infância e apreciando o que ainda resta dele. 

Do alto do morro, o poeta, quando as águas do Canindé entravam nas águas do Parnaíba, formando um filete de espuma branca, dizia: "As barbas brancas alongando". Quanto a nós, mortais, resta-nos apenas dizer: SAUDADE!

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Lourival Lopes Silva é escritor, poeta e professor do IFPI - nas redes sociais.
 

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