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Sabado, 07 de março de 2026
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cantidiosfilho@gmail.com

16/09/2025 - 08h09

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16/09/2025 - 08h09

O Perdedor de Votos

 

O cidadão insistiu: “E o nosso agrado?”

 O cidadão insistiu: “E o nosso agrado?”

Por ser um sertanejo e, naturalmente, por entender a linguagem dessa brava gente, fui escalado para fazer a campanha do PT (1985) na zona rural de Teresina. A gasolina por minha conta, claro.  Quase sempre, eu me fazia acompanhar do Valério, uma espécie de líder sindical ou coisa parecida. Pelo menos duas vezes por semana, visitávamos comunidades perdidas na zona rural da cidade.
            
Numa manhã qualquer, visitamos um pequeno povoado nas proximidades da Usina Santana. Ali morava um punhado de lavradores pobres que praticava a agricultura de subsistência. Plantavam em terras alheias. De cada quatro sacos de grãos (feijão, milho, arroz) colhidos, um ficava com o dono da terra. Na verdade, viviam como “agregados”. Na comunidade, havia uma escolinha isolada e nada mais.
            
No terreiro de uma das casas, um punhado de lavradores nos esperava.  Com paciência, fui falando do processo de exploração a que estavam submetidos, da perpetuação da pobreza e de outras obviedades. Ouviam tudo com atenção e, acidentalmente, faziam perguntas. Por volta do meio-dia, bateram sede e fome. Não nos ofereceram uma xícara de café, uma caneca d’água...
            
De repente, um cidadão negro, carapinha branca, idade inescrutável, pediu a palavra. Pelo jeito, tinha alguma ascendência sobre os outros. Falou pausadamente: “Vejo que o senhor é diferente dos outros que vêm aqui: fala dum jeito que a gente entende. Tudo o que o senhor falou ficou no nosso entendimento”. Os outros concordaram e até ensaiaram umas palmas. Fiquei orgulhoso, quase feliz. Agradeci a todos e me preparei para sair. O cidadão adiantou-se e perguntou: “O senhor já vai?”. Diante da resposta afirmativa, enfiou outra pergunta: “E sai assim sem deixar o nosso agrado?”. Fiz de conta que não entendi. A pergunta, na verdade, jogava por terra todo o meu entusiasmo. O cidadão insistiu: “E o nosso agrado?”. Perdi a paciência:  olhe aqui, meu senhor, sou filho de um camponês tão pobre quanto o senhor. Com ele, aprendi muitas coisas. Uma delas: agrado a gente oferece para crianças ou para prostitutas. Onde o senhor se enquadra? Alguns lavradores esboçaram um sorriso de poucos dentes; outros franziram o cenho. O cidadão elevou a voz e disparou: “Pois vou lhe dizer só uma coisa: aqui, você não terá um voto!”
            
Era um homem de palavra: não tivemos um mísero voto naquela comunidade miserável. 
            
Por esta e outras, os partidos desistiram de mim. Foi a melhor coisa que me aconteceu.

(Fragmento de O aldeão lírico)

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Cineas Santos é professor, escritor, poeta e produtor cultural - nas redes sociais.


 

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