Com uma mala de couro, uma rede puída e dezoito cruzeiros no bolso, fui bater à porta da UPES (União Piauiense dos Estudantes Secundaristas),numa tarde do dia 4 de maio de 1965. Ali, amontoavam-se os refugados da Casa do Estudante do Piauí. Eram muitos disputando pouco espaço. Eram tão insignificantes, que atendiam pelos nomes dos municípios de origem. Assim, havia um “Floriano”, um “Angical”,etc. Na casa velha, só chegava água três vezes por semana e não havia um único banheiro. Por piedade, o presidente da UPES me permitiu incorporei-me à legião dos náufragos que vegetavam ali. Ásperos tempos.
Todos muito pobres, a maioria constituída de semianalfabetos, não passávamos de “pingentes”, naquela acepção usada pelo escritor João Antônio: miseráveis pendurados num fiapo de esperança... Para que se tenha uma ideia da pobreza, dividia-se até o sabonete usado. A miséria nos unia: compartilhávamos tudo. Na segunda semana de infortúnio, sobrevivi comendo pão dormido com leite “pau de índio”, gentileza do Raimundo Machado, que trabalhava na “Padaria Roldão”. Além de estudar, era necessário encontrar um “trampo” para sobreviver. José Teles Veras levou-me para trabalhar num fábrica de sandálias de borracha. Numa geringonça tenebrosa, eu fabricava os cabrestos das sandálias. Recebia dez cruzeiros por semana. Pior que a dureza do trabalho era o cheiro de borracha impregnado na pele, nos ossos, na alma...
Sobrevivi para contar a história: alguns parceiros ficaram pelo caminho. Hoje, passei em frente à casa velha, em ruínas (esquina das ruas Des. Freitas com 24 de Janeiro)e, como num clip mágico, revi tudo aquilo com gosto de sal na boca. Numa das paredes, um pichador competente fez um desenho pavorosamente bela, sem saber que aquela figura triste serviria para retratar qualquer um dos miseráveis que viveram ali. Só a arte nos redime.
*Postei este trem em 2016. Há poucos dias, a casa velha foi derrubada. Deve estar nascendo mais um estacionamento no centro da cidade.
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Cineas Santos é professor, escritor, poeta e produtor cultural - nas redes sociais.






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