Muitos operadores das letras, da literatura, poetas e quejandos costumamos deslegitimar ou mesmo questionar a razão da existência da Academia Brasileira de Letras. A crítica se volta para seu perfil considerado anacrônico, sua herança ultrapassada, criada no início da República aos moldes da Academia Francesa, a ideia de 40 membros, senhores e pouquíssimas senhoras, denominados imortais (com toda inglória do vocábulo), a prosaica reunião do chá, os jetons recebidos, os emolumentos isentos de impostos e toda a mítica, laudatória ou pejorativa, em torno da agremiação.
Sabemos, é claro, da importância do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, necessária base de pesquisa lexical continuamente atualizada pela ABL. Contudo, sempre são questionadas as candidaturas eleitas, para o bem ou para o mal e com argumentos retóricos dos mais variados: o que seria velho ou novo, o que seria ultrapassado ou contemporâneo, o viés ideológico, a qualidade da obra ou sua própria relevância e tantos outros litígios.
Recentemente foi eleito o escritor amazonense Milton Hatoum, e um pouco antes a escritora negra Ana Maria Gonçalves. Essas duas escolhas resultaram confortáveis diante dos questionamentos sobre outras vindas de campos não necessariamente relacionados com a literatura, os casos, por exemplo, de Fernanda Montenegro e Gilberto Gil.
O fato é que nossa relação com a ABL é meio contraditória, detonamos a academia e, ao mesmo tempo, destacamos com interesse a substituição de uma imortalidade morta por outra vitalícia a ocupar a cadeira deixada.
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Feliciano Bezerra, professor doutor da UESPI - nas redes sociais.






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