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Sabado, 07 de março de 2026
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Iane Carolina

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contato@acessepiaui.com.br

05/08/2025 - 05h14

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05/08/2025 - 05h14

Príncipe Maquiavélico

 

Homens iguais a Igor estão espalhados aos montes pelo Brasil e o mundo.

 Homens iguais a Igor estão espalhados aos montes pelo Brasil e o mundo.

Não é como um agressor declarado que um homem conquista uma mulher. No ato da conquista, ele se apresenta como um príncipe. Elegante, charmoso, promete céus e terras à pessoa que pretende ter como parceira por uma noite ou por um relacionamento longo. Assegure-se, caro leitor, não foi com grosserias que Igor Eduardo Pereira Cabral se apresentou à Juliana Garcia dos Santos quando tentou conquistá-la. O caso que ficou conhecido como 61 socos, crime cometido no dia 26 de julho, só evoluiria para isso depois de muito tempo. Juliana conheceu um príncipe e descobriu o monstro muito tarde.

O nome da evolução da violência entre um homem e uma mulher se chama Ciclo da Violência Doméstica, definido na literatura que permeia violência contra a mulher, regulada por órgãos de controle, como Ministério Público, e demais instâncias, como universidades. Compreendendo o ciclo da violência é possível compreendermos mais acerca sobre muitos casos de violência doméstica.

O homem não inicia o relacionamento se apresentando com atos violentos, pelo contrário, ele é uma pessoa amável. À medida que o relacionamento se desenrola, ele manifesta comportamentos e ações para cercear as condutas da mulher e que são tipificadas como violência moral, psicológica, patrimonial, etc. Afastá-la do convívio da família, dos amigos; proibir que ela use roupas decotadas, de determinadas cores ou estilos; controlar/vigiar/ apropriar-se do dinheiro ou bens da mulher; depreciar sua imagem, chamando-lhe de feia, gorda ou dizendo que ela nunca vai arranjar outro homem, dentre outras ações são atos de violência.

O ciclo da violência doméstica se torna mais intenso quando as discussões tomam corpo nos momentos em que o casal se desentende. A cada discussão ou desentendimento, a tensão aumenta. Primeiro são gritos, depois são socos na parede, depois objetos quebrados, até que a violência física direta contra a mulher se concretiza. E piora a cada vez mais. Um puxão, um machucado, um tapa, um puxão de cabelo, um soco. 61 socos. O feminicídio.

Durante o ciclo da violência, a cada discussão existe também a Fase da Lua de Mel (termo utilizado na literatura do combate à violência doméstica). Depois da discussão que pode haver ou não violência física, o agressor sempre se arrepende e pede perdão à vítima. Ele leva flores, bombons, usa os filhos, a família e o tempo que têm juntos como chantagem emocional.... E muitas vezes ela perdoa, até que chega mais uma agressão.

Estes atos de violência se perpetuam por conta de uma cultura enraizada ao longo dos séculos, por um pensamento de que as mulheres não são companheiras e sim propriedade. Apenas em 2021 o Supremo Tribunal Federal decidiu proibir o uso da “legítima defesa da honra” nos julgamentos de feminicídio.

Entre os anos de 1605 e 1830, o homem que tivesse “sua honra lesada” por adultério, poderiam agir com violência contra a mulher, incluindo assassinando-as. Somente no Código Penal de 1940, a absolvição de acusados que cometeram crime sob “a influência de emoção ou paixão” deixou de existir. Contudo, a tese continua a ser usada pela defesa de acusados para defender a inocência. O adultério só deixou de ser crime em 2005.

Durante uma semana, as notícias e comentários da internet comentaram e debateram não só sobre o crime que Igor Eduardo Pereira Cabral, de 29 anos, praticou contra Juliana Garcia, levando-a ao hospital desfigurada, necessitando de internação e cirurgia. Os internautas também especularam o que Juliana teria feito para que o ex-jogador da seleção brasileira de basquete cometesse a tentativa de feminicídio.

De acordo com o próprio relato de Juliana, o caso aconteceu após o namorado ter tido ciúmes ao olhar o celular dela. Os juízes de plantão logo declararam a vítima  - e não o agressor – culpada, como se houvesse qualquer razão para que um homem espancasse uma mulher daquela forma. No direito se trabalha com razoabilidade proporcionalidade e não há nenhuma das situações no caso em questão. Na vida trabalhamos ainda com os olhos e não se vê qualquer motivo para tamanha brutalidade.

Homens iguais a Igor estão espalhados aos montes, milhares e milhões pelo Brasil e pelo mundo. E não dá para perceber ainda quando se conhece alguém que está tentando nos encantar. Um homem se mostra agressor muito depois do relacionamento ter começado. E a vítima precisa estar na condição que ela realmente está: de vítima. E não de culpada. Mulheres precisam ser reconhecidas pela violência que sofrem, amparadas pelos órgãos de controle e receber apoio da sociedade para que consigam se reerguer e deixarem de ser vítimas.

Tentar culpar uma mulher por ser quase morta por um homem que tenta alegar surto psicótico depois de tal atrocidade é a maior insanidade de todas. O real culpado desta história é o príncipe maquiavélico, que além de tudo, ainda premedita se safar das acusações e teme outros homens na cadeia pública em que está detido – porque lá há outros homens – e não mulheres com quem ele possa praticar todo tipo de violência moral, psicológica, patrimonial e física.

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