Dona Dezinha, minha irmã querida, gastou boa parte da vida cuidando de mim. Na meninice, no sertão do Caracol, comandava as reinações típicas de crianças sertanejas. Mais tarde, ensinou-me a nadar, andar de bicicleta e a amar boleros. Em nossa casa, não havia rádio, mas não faltava música. A Dezinha tinha um caderno com as letras dos boleros famosos. Assim, enquanto cuidava da casa, cantava, cantava, cantava... Tinha (ainda tem) a voz bonita e não desafina. Mas dona Dezinha vai muito além: reza sempre por mim, um jeito carinhoso de me proteger.
Quando nos encontramos, o que acontece com certa frequência, passamos horas a fio relembrando histórias do começo do mundo. Para aperreá-la, costumo chamá-la de “Véia Zabel”, referência à velha doida que criou dona Purcina. Ela não deixa por menos: só me chama de “Véio Fulô”, um apelido que se ajusta a mim como uma luva.
Por que estou falando disso agora? Bem, 19 de julho é o aniversário dona Dezinha. Por falta de coisa melhor, um bolero caprichado e preces para que ela permaneça lépida e lúcida, cuidando de mim. Assim seja.
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Cineas Santos é professor, escritor, poeta e produtor cultural - nas redes sociais.






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