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Sabado, 07 de março de 2026
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cantidiosfilho@gmail.com

19/07/2025 - 17h18

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19/07/2025 - 17h18

Olhares Desconfiados

 

“Professor, o que fizeram com a nossa cidade?

 “Professor, o que fizeram com a nossa cidade?

Há coisa de dez anos, conheci um casal carioca que, ao visitar o Piauí, perdeu-se de amores por Teresina e aqui fincou raízes.  Ele, ex-funcionário da Petrobras; ela, professora aposentada. Filhos crescidos, situação financeira confortável, os dois podiam dar-se ao luxo de morar em qualquer lugar do país. Optaram pela Chapada do Corisco.
            
Certa feita, o cidadão me disse: “Professor, a paisagem humana do Rio de Janeiro estava me fazendo muito mal. A tão decantada cordialidade do carioca tornou-se uma falácia. Todos olham a todos com muita desconfiança. Pelo menos para mim, é impossível viver num lugar assim. O que mais me fascina em Teresina é a hospitalidade dos teresinenses, o jeito sossegado de agir e o olhar de quem confia”. A ex-professora encantava-se com a cadeira de espaguete na calçada: “Que cena mais bonita! Gente sentada na porta das casas, conversando, olhando a vida. Isso reforça os laços que caracterizam uma comunidade”, afirmava.
            
O tempo e os contratempos nos separaram: perdi o casal de vista. Na semana passada, encontrei-me com o cidadão. Ao me ver,  não se conteve: “Professor, o que fizeram com a nossa cidade? Foram necessários mais de 40 anos para que se desconstruísse o tecido comunitário do Rio de Janeiro. Aqui, isto se fez em menos de dez...” Indescritível o ar de desencanto do cidadão. A mulher, segundo ele, voltara ao Rio no início do ano. Impossível convencê-la a permanecer em Teresina. “Se é para viver ‘protegida’ por cercas elétricas, enfrentando engarrafamentos, olhando as pessoas com medo e desconfiança, volto para  a minha cidade onde, pelo menos, a paisagem física continua linda”, sentenciou. Meu amigo está vendendo o que construiu aqui e pretende voltar também.
            
Sem saber o que dizer, brinquei:  feliz de vocês que têm a opção de voltar para sua cidade de origem. Eu também faria o mesmo não fosse o meu Campo Formoso apenas uma metáfora boiando na memória. Gostando ou não, estou condenado a viver na Chapada. Já não tenho idade nem disposição para começar nenhum projeto de novo. Abracei-o e desejei-lhe boa sorte.
                                    
*Esta crônica foi escrita há bastante tempo. Lembrei-me dela por causa de um incidente revelador. Na semana passada,  mestre Oswaldo, um cidadão que me ajuda a cuidar do meu quintal, chegou à minha casa, subiu a calçada com a moto e, antes de tocar a campainha, ouviu o grito de um senhora que passava pelo local: "Pegue tudo, moço, mas não me faça mal pelo amor de Deus!".
               
Oswaldo, um trabalhador honesto, com mais de 60 anos de idade, não entendeu nada. Tocou a campainha como sempre faz.  Fui abrir o portão e ainda pude ver a senhora em desabalada carreira descendo a rua aos gritos. Foi aí que me lembrei da velha crônica, que deverá ganhar novo título: olhares apavorados.

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Cineas Santos é professor, escritor, poeta e produtor cultural - nas redes sociais.

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