Há 20 anos (11/07/05), dona Purcina, a velha matriarca, saiu de cena. Havia bastante tempo que já não se ligava aos rumores do mundo: o Mal de Alzheimer a consumia. Registrei o que pude no livro Dona Purcina - a matriarca dos loucos. Mas a velha insiste em me surpreender.
Há pouco tempo, na companhia de dona Dezinha, fui visitar uma tia em Anísio de Abreu. Paramos numa loja bonita para comprar um vestido para a tia velha. O dono do estabelecimento nos observava com o mais vivo interesse. De repente, não se conteve: "A senhora se parece muito com uma velhinha que conheci em São Raimundo Nonato". Perguntei-lhe: como era essa velhinha? O cidadão afirmou: "Uma senhora muito generosa. Na época, eu era vendedor ambulante. Sempre que que eu parava na casa dela, ela me oferecia um copo de água, um cafezinho, um doce. Um dia, eu voltava pra casa meio desacorçoado: não tinha vendido nada. Então, ela me perguntou: 'Você vendeu alguma coisa hoje, meu filho?'. Quando eu respondi que não, ela falou: 'Pois eu vou lhe comprar nem que seja um pente para você não perder o gosto por seu negócio'. Então, o incentivo dela me ajudou a construir isto aqui". Quando eu lhe disse que dona Purcina era nossa mãe, o moço não quis que eu pagasse pelo tecido que comprei. Agradeci a gentileza, paguei e saímos.
Já na rua, afirmei: Dezinha é muita responsabilidade ser filho de dona Purcina.
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Cineas Santos é professor, escritor, poeta e produtor cultural - nas redes sociais.






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