Junho talvez seja o mês mais aguardado do ano para os nordestinos e para outros locais do Brasil. É um mês inteiro de festas com danças, comidas típicas, decorações e tradições que remontam uma história que herdamos das quadrilhas europeias, mas como sempre, transformamos à nossa maneira.
É durante o mês de junho que o Nordeste e muitas partes do Brasil param para ver as quadrilhas juninas se apresentarem em espetáculos que já viraram dignos de Broadway. Festejos em partes do país, como Caruaru e São Luís, que se tornaram verdadeiras atrações turísticas que mobilizam o mês inteiro de festa e muitos visitantes. É o nosso segundo carnaval! Mas o que está por trás das festas juninas?
As quadrilhas que hoje se apresentam de forma profissional para competirem em várias partes do Nordeste e do Brasil representam algo muito intrínseco de nosso povo: a cultura popular. Apesar do requinte empregado hoje, da profissionalização, das coreografias altamente ensaiadas, dos caríssimos figurinos e da midiatização desta faceta da nossa cultura, tem raiz nas manifestações simples que se faziam nas ruas, nas quermesses e nos bairros periféricos à beira de uma fogueira improvisada.
E estas representações não morreram! Além das quadrilhas juninas, a vitrine de um amplo leque de manifestações populares, há culturas como o Bumba-Meu-Boi, o Reisado, a Festa do Divino, o Salambisco, dentre outros. Infelizmente o apoio para a manutenção destes grupos ainda é escasso, com a exceção dos estados que investem no setor por conta do apelo turístico, que atrai milhares de visitantes anualmente, como o Estado do Maranhão, concentrando a destinação dos recursos do São João na capital – São Luís, com a forte presença de grupos de Bumba-Meu-Boi; e o Estado do Pernambuco, que investe massivamente no Frevo.
A exemplo da falta de investimentos, podemos citar um grupo de Bumba-Meu-Boi tradicional maranhense, com sotaque de costa de mão, que tem raízes do período de escravidão e não tem a mesma fama/popularidade de outros sotaques, como o sotaque de matraca. De acordo com pesquisa do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan – 2017), de 18 grupos apenas seis estavam em atividade e somente quatro conseguiram se apresentar no ano em que foi realizada a pesquisa.
Dentre os motivos da diminuição drástica do número de grupos do Boi estão a falta de recursos materiais, financeiros e humanos; desinteresse dos jovens, desvalorização da brincadeira pela comunidade e até a discriminação dos Bois.
No Piauí, a cultura do Boi e as festas juninas são tradição, além das tradicionais festas de Reisado e do Divino. Com grande parcela da população seguindo o catolicismo, as culturas populares permanecem presentes no estado, mas precisam ter cada vez mais incentivo para que não desapareçam.
Um grande impulsionamento das culturas populares têm sido a Política Nacional Aldir Blanc, que mesmo longe abarcar o que queremos para manter os grupos, têm financiado pontos de cultura, como os de quadrilhas e bumba-meu-boi, além de selecionar projetos pelos municípios e estados do Brasil. Anualmente são R$3 bilhões repassados aos estados e municípios, que ficam encarregados dos chamamentos públicos em que grupos, pontos de cultura e artistas culturais podem se beneficiar da verba.
Dentre as diretrizes, a PNAB estabelece o desenvolvimento de atividades de economia criativa e de economia solidária, a valorização de grupos minoritários, o incentivo ao protagonismo feminino, assim como levar as ações para pessoas em vulnerabilidade social. Do montante do recurso, 20% deve ser destinado a ações em áreas periféricas e rurais, de povos e comunidades tradicionais, como forma de descentralização de acesso à cultura.
São políticas como estas que devem ser adotadas por estados e municípios de forma a prover a manutenção da cultura de grupos que não dispõem de recursos, como as produções milionárias, financiadas por grandes empresas. Valorizar as tradições da cultura popular é respeitar e promover a pluralidade, é dar cada vez mais opções aos artistas e à população de conhecer suas raízes e preservar sua memória. O São João é tradição, mas ele é muito mais que isso.






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