A manhã nada prometia de aproveitável. Antes das onze horas, eu já havia colecionado um punhado de aporrinhações. O trânsito, para variar, uma lesma carregada de chumbo... De repente, levanto a vista e percebo que o veículo à minha frente ostenta uma placa pra lá de especial: PAZ-6486. Confesso que experimentei uma inexplicável alegria. Como só penso bobagens, imaginei todas as placas de todos os veículos do mundo ostentando as três letras mágicas. Os números poderiam variar; as letras, não.
De repente, comecei a cantarolar o final da canção "Valsinha", Chico Buarque de Holanda: "Que o mundo compreendeu/ E o dia amanheceu em paz"...
Atrás de mim, um impaciente buzinou furiosamente. Aí foi a vez de lembrar-me dos versos finais do poema "Sentimental", do Drummond:" Eu estava sonhando.../E há em todas as consciências este cartaz amarelo: 'neste país é proibido sonhar'".
*****
Cineas Santos é professor, escritor, poeta e produtor cultural - nas redes sociais.






Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião desta página, se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.